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Realidade, uma convenção humana


"O homem é a medida de todas as coisas"

Protágoras de Abdera

Nascido em Abdera, Protágoras (481-410 a.C), considerado pai do movimento sofístico, foi um dos mais importantes sofistas de Atenas. Foi amigo de Péricles, político e orador grego, que o teria encarregado de redigir uma constituição para a recém-formada colônia ateniense de Thurii em 444 a.C.

A influência de Protágoras na história da filosofia foi significativa. Historicamente, foi em resposta a ele e a seus colegas sofistas que Platão começou sua busca por formas transcendentes de conhecimento o qual pudesse de alguma maneira ancorar o julgamento moral. Com os outros sofistas e Sócrates, Protágoras fez parte de uma mudança no foco filosófico da antiga tradição pré-socrática da filosofia natural para um interesse na filosofia humana. Ele enfatizou como a subjetividade humana determina a maneira como entendemos, ou mesmo construímos, nossa realidade, uma posição que ainda é parte essencial da moderna tradição filosófica.

O que é a realidade?

A realidade nada mais é do que a interpretação que os seres humanos, dentro dos ordinários aspectos biológicos, têm do universo. Ou seja, tudo que entendemos desse mundo são apenas o que os nossos cinco sentidos (olfato, paladar, visão, audição e tato) nos permitem conhecer. Dessa forma, não enxergamos a realidade em si, ou melhor, o que ela realmente é, mas sim, uma interpretação que nossos aspectos sensoriais têm do que é real.

Peguemos a visão como exemplo:


As folhas da árvore acima são realmente verdes? A resposta correta é: Não sabemos.

Convencionou-se verde porque os seres humanos, em sua maioria, são tricromatas, uma vez que possuem três células cones ou pigmentos na retina (verde, vermelho e azul), o que os permite enxergar a cor verde para as folhas. Porém, animais como cães e gatos ou indivíduos daltônicos, os quais possuem duas células cones na retina, enxergam uma variedade de cores muito menor que os seres humanos possuidores de três pigmentos. Deste modo, eles veem as folhas com uma tonalidade muito diferente do verde. Para eles, as folhas não possuem essa cor. Há também alguns animais que possuem apenas uma célula cone na retina, ou seja, não enxergam cores.

Se o homem, em seu processo evolutivo, tivesse se desenvolvido com apenas um pigmento na retina, isto é, possuidor de uma visão monocromática, nós veríamos o mundo da mesma forma como vemos um filme preto e branco. Desta maneira, não sentiríamos falta das cores, pois nem saberíamos o que poderia ser uma cor, e, consequentemente, teríamos plena certeza de que o mundo seria desta forma, preto e branco. Imagine agora que uma só pessoa, dentre esses indivíduos, nascesse com os três pigmentos na retina, enxergando cores. Ela não conseguiria explicar a absolutamente ninguém que o mundo era diferente do que viam e, certamente, seria tida como louca pelos demais, uma pessoa que imagina coisas que ninguém mais vê.

Com efeito, entre os humanos, já foram diagnosticadas muitas mulheres que são tetracrômicas, em outras palavras, nasceram com quatro pigmentos na retina. Por sua vez, assim, enxergam cerca de cem vezes mais cores que os seres humanos considerados normais. Para elas, as folhas da árvore são de cores as quais não somos capazes de interpretar. Há também animais com cinco, seis ou até mais pigmentos na retina, o que lhes possibilita enxergar um leque de cores muito diversificado que não conseguimos sequer compreender.

Diante do exposto, percebe-se que o universo é muito diferente do que achamos que é, pois não enxergamos o mundo como ele é, mas sim enxergamos como nossos olhos enxergam como ele é. Ninguém pode saber o que é a realidade em si, senão sua própria interpretação dela. Dessa forma, fica claro que o que chamamos de real é apenas uma convenção que nós, seres humanos considerados biologicamente normais, impomos ao corpo social. De outro modo, conseguimos, agora, compreender mais facilmente a frase de Protágoras: "O homem é a medida de todas as coisas".

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