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Drácula: A verdadeira história contada


A mais celebrada narrativa de vampiros continua, até hoje, a transcender fronteiras de tempo, espaço, história e memória. O romance clássico do irlandês Bram Stoker ainda permeia os mais variados corações e mentes de incontáveis leitores ao redor do mundo. Drácula começou a ser escrito em 1890 e só foi publicado em maio de 1897.

                                      Pintura a óleo de Vlad III no Palácio de Ambras, Áustria, datada de 1560

Atualmente, Vlad III, também conhecido como Vlad Tepes, Vlad, o Empalador, ou Vlad Dracula, está comumente associado ao personagem vampiresco de Stoker. Porém, essa informação contém alguns equívocos históricos os quais mencionarei a seguir.

Primeiramente, não se pode esquecer que o romance foi escrito no final do século XIX, auge da Era Vitoriana, ou seja, período em que ocorre a expansão ferroviária da Grã-Bretanha e a consolidação do pensamento da supremacia inglesa às demais nações. Assim, colônias distantes, terras inexploradas e regiões ainda inacessíveis pareciam endemicamente impuras à coroa britânica e entregues aos costumes primitivos e pagãos. Incutindo, dessa maneira, um estereótipo de monstruosidade inata aos estrangeiros. Logo, a literatura vitoriana, por consequência, foi fortemente influenciada por esse cenário.

Diante desse contexto, vale lembrar que Bram Stoker jamais pisou na Romênia, portanto, inspirado na tradição dos registros de viagem, construiu sua Transilvânia ficcional repleta de estereótipos os quais servem para legitimar o conde Drácula como uma figura primitiva, impermeável ao verniz da civilização. Tendo como fonte um apanhado de informações avulsas imprecisas e alguns relatos de britânicos que descreveram suas experiências na região, Stoker os usou como reflexos da cultura do Leste Europeu, o que o levou a algumas falhas e equívocos. O resultado foi a indelével associação da Romênia com os vampiros e, mais precisamente, do conde Drácula com Vlad Dracula. A lealdade de Stoker, contudo, estava com a literatura e não com a historiografia do Leste Europeu. Basta lembrar que seu Drácula é um conde, título que sequer existia na Romênia.

Desmistificando o nome Drácula

Inicialmente, Bram Stoker pretendia batizar seu vampiro de conde Wampyr. No entanto, uma leitura fortuita no verão de 1890 fez com que o autor alterasse o nome para Drácula. A obra responsável pela mudança de nome — e, mais tarde, pelo título do romance — chama-se "Um Registro Sobre os Principados da Valáquia e da Moldávia" e fora publicado em 1820 por William Wilkinson, um cônsul britânico. O que chamou a atenção de Stoker foi uma nota de rodapé em que Wilkinson informa erroneamente aos leitores a etimologia da palavra 'Dracula', usada para se referir a Vlad III: "Drácula, no idioma valáquio, significa 'diabo'. Os valaquianos costumavam dar esse sobrenome a qualquer pessoa que se tornasse célebre por coragem, crueldade ou astúcia". Nessa nota jaz a verdadeira fonte de inspiração de Stoker, a fim de ressaltar o aspecto diabólico do personagem, e de todos os equívocos posteriores.

No entanto, Dracula (ou Drácula, em português) significa "filho de Dracul", que, por sua vez, significa "dragão". O nome é referência à Ordem do Dragão, associação de cavaleiros fundada no início do século XV pelo rei Sigismundo da Hungria, o qual defendia o cristianismo e lutava contra seus inimigos, sobretudo os turcos otomanos. Entre seus membros estava Vlad II, voivoda (príncipe) da Valáquia. Em 1431, convidado para fazer parte da prestigiosa ordem, adotou o nome Dracul, passando a ser conhecido como Vlad Dracul. "Dracula" foi apenas o nome usado por seu filho Vlad III (1431-1476), sem qualquer alusão intencionalmente satânica. Que Vlad III tenha sido comparado ao demônio por suas crueldades —entre elas, o empalamento de suas vítimas, o que lhe rendeu o nome Tepes (empalador) — é outra história, cheia de suas próprias lacunas e mistérios.

Drácula no contexto do leste europeu

Em 1457, o Drácula histórico organizou em Târgoviste, Bulgária, um banquete para os boiardos (título atribuído aos membros da aristocracia russa do século X ao XVII) e suas famílias. Sua intenção era vingar a morte de seu pai e irmão por eles assassinados. O irmão, Miceia, fora capturado, ele teve seus olhos queimados com ferro em brasa e foi enterrado vivo. Enquanto seu pai, Dracul, fora executado em perseguição. Vlad ordenou aos soldados que cercassem e detivessem os convidados ao fim do banquete. Os mais velhos foram empalados e os demais forçados a ir para Poenari, Romênia, onde se viram obrigados a construir uma fortaleza colossal, tida durante certo tempo como o "verdadeiro" castelo de Drácula.

Castelo de Poenari.

Após diversas batalhas com os turcos, Vlad recolheu-se em Poenari. Conta-se que o cerco dos inimigos exerceu tamanha pressão emocional em sua mulher que ela teria se atirado da fortaleza no rio Arges. A tradição oral que perdura até hoje, sobretudo na aldeia de Arefu, afirma que Drácula escapou do cerco turco com a ajuda dos camponeses. Assim, ao se ver salvo na fronteira, teria oferecido uma recompensa aos camponeses, os quais recusaram sua oferta de ouro, mas pleitearam terras. Ele concedeu a posse das terras vizinhas aos patriarcas que o ajudaram, via documento. Esse direito perdura até os dias atuais e, segundo eles, é a origem da aldeia.

Os camponeses admitem a crueldade do Drácula histórico, bem como relembram seus feitos mais lendários, como a Floresta dos Empalados (espetáculo macabro de 20 mil inimigos empalados na entrada da Valáquia para afugentar os turcos invasores).

Figura ilustrativa da Floresta dos Empalados

Sendo assim, o tema vampírico está mais associado ao ocidente do que ao leste europeu. A clara dependência do turismo os leva a aceitar a presença do conde Drácula e seu autor em seus domínios, sendo que muitos guias aproveitam-se dessa associação, dissipando, dessa maneira, qualquer confusão entre o Drácula histórico e a criação literária de Bram Stoker.

Considerações finais

Em resumo, não há nenhum indício de que Stoker tenha conhecido pormenores da história de Vlad III; ele não usa o nome Vlad, nem sequer faz menção ao seu costume de empalar os inimigos. Lendas do século XVI, como as que narram Vlad Tepes fazendo refeições diante de prisioneiros empalados para molhar seu pão no sangue dos condenados, também não estavam entre as fontes de pesquisa de Stoker, e não entraram na composição do enredo, por mais que pareçam pertinentes a uma história de vampiros.

Imortalizado como um dos baluartes do gênero, Drácula é a pedra de toque literária que se usa para conferir "autenticidade" de todos os vampiros posteriores. Na cosmogonia do monstro, Bram Stoker criou um mito. E mitos, como sabemos, são mistérios que aceitamos de peito aberto e olhos fechados.

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