Pular para o conteúdo principal

Jesus Cristo e o vinagre do soldado romano


Depois, sabendo Jesus que já todas as coisas estavam terminadas, para que a Escritura se cumprisse, disse: Tenho sede. Estava, pois, ali um vaso cheio de vinagre. Encheram de vinagre uma esponja, e, pondo-a num hissopo, lha chegaram à boca. E, quando Jesus tomou o vinagre, disse: Está consumado. E, inclinando a cabeça, entregou o espírito. (João 19: 28-30).

Predela central, "La Crucifixion", de Andrea Mantegna, Museu do Louvre, Paris.


O vinagre

Palavra formada pelo processo de aglutinação das palavras "vinho + acre", derivada do latim vinum acre, ou vinho azedo. O vinagre tem como principal componente o ácido etanoico, também chamado de ácido acético. Esse componente é um líquido incolor de cheiro forte e irritante e de sabor azedo, que confere ao vinagre esse paladar característico. 

Fórmula estrutural do ácido etanoico (nomenclatura IUPAC) ou acético. Composto que pertence ao grupo orgânico dos ácidos carboxílicos.

Assim, como pertencente à função ácido carboxílico, o ácido acético é muito usado como estimulante salivar, o que evita o ressecamento bucal, amenizando, dessa forma, a sensação de sede, e auxilia na digestão alimentar.


Utilização do vinagre pelos soldados romanos

Entre os principais destaques do Império Romano, evidenciam-se as expansões territoriais, uma vez que, após as Guerras Púnicas, de 264 a 241 a.C, os soldados conseguiram destruir a civilização de Cartago, região de origem fenícia, e conquistar toda a rota marítima do Mar Mediterrâneo. Em vista disso, o Império alcançou uma imensidão territorial de aproximadamente sete milhões de metros quadrados. Entre os territórios conquistados destacam-se a Grécia, o Egito, a Macedônia, a Gália, a Germânia, a Trácia, a Síria e a Palestina.


Território do Império Romano.

Isso porque, para conquistar novas terras, o Império Romano dispunha de suas legiões, compostas cada uma por até seis mil homens, os quais marchavam longas distâncias. Dessa forma, para percorrer tais espaços de terra, os soldados romanos levavam consigo um frasco contendo vinho azedo (vinagre), pois pequenos goles desse líquido estimulavam a salivação dos soldados, o que diminuía a sensação de sede, como dito anteriormente. Isso fazia com que as legiões economizassem tempo e percorressem grandes distâncias.

Logo, o vinagre não só fazia parte da culinária romana, como também era amplamente utilizado pelos soldados.

Sarcófago de Portonaccio, Museo Nazionale Romano (palácio Massimo). Representação do exército romano lutando contra os gauleses.

O vinagre dado a Jesus na cruz, escárnio ou compaixão?

Era páscoa. E na páscoa, segundo a tradição judaica, podia-se libertar um prisioneiro em troca da execução de outro. Estavam ali Jesus e Barrabás em frente à multidão de judeus. Pôncio Pilatos, governador da província romana da Judeia, acreditava que Jesus seria liberto, pois não encontrava nEle motivo algum para execução. Desse modo, convocou os sacerdotes judeus e o povo; e disse: "Portanto, vou castigá-lo e depois o soltarei". Porém, no momento da escolha para a soltura, a multidão gritou: "Mate esse homem!". "Soltem Barrabás". Pilatos tentou por três vezes libertar Jesus, mas todos gritavam: "Seja crucificado". Pilatos, então, notou que nada conseguiria e que uma revolta era iminente. Logo, no ato de condená-lo, pediu uma bacia com água e, lavando as mãos diante do povo, exclamou: "Estou inocente do sangue deste homem justo. Esta é uma questão vossa". Desse modo, Pilatos solta Barrabás, manda flagelar Jesus e o entrega para ser crucificado. E assim, carregando sua própria cruz, Jesus saiu para um lugar chamado Calvário, Gólgota em aramaico, onde o crucificaram. 

Preso à cruz, Jesus teve sede, e o soldado romano deu-lhe vinagre para beber. Porém, ao contrário do que muitos afirmam, o gesto do militar foi movido de compaixão. Visto que os romanos, principalmente os soldados, sabiam da eficácia do vinho azedo para atenuar a sensação de sede. E, após esse generoso ato, Cristo morreu.

Ressurreição de Cristo, de Rafael. Pintura óleo sobre madeira. Museu de Arte de São Paulo (MASP), São Paulo.

Ao cair da tarde do terceiro dia após o sepultamento de Cristo, trancadas as portas da casa onde estavam os discípulos com medo dos judeus, veio Jesus, pôs-se no meio e disse-lhes: Paz seja convosco! E, dizendo isto, lhes mostrou as mãos e o lado. Alegraram-se, portanto, os discípulos ao verem o Senhor. (João 20: 19-20).

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Drácula: A verdadeira história contada

A mais celebrada narrativa de vampiros continua, até hoje, a transcender fronteiras de tempo, espaço, história e memória. O romance clássico do irlandês Bram Stoker ainda permeia os mais variados corações e mentes de incontáveis leitores ao redor do mundo. Drácula começou a ser escrito em 1890 e só foi publicado em maio de 1897.                                       Pintura a óleo de Vlad III no Palácio de Ambras, Áustria, datada de 1560 Atualmente, Vlad III, também conhecido como Vlad Tepes, Vlad, o Empalador, ou Vlad Dracula, está comumente associado ao personagem vampiresco de Stoker. Porém, essa informação contém alguns equívocos históricos os quais mencionarei a seguir. Primeiramente, não se pode esquecer que o romance foi escrito no final do século XIX, auge da Era Vitoriana, ou seja, período em que ocorre a expansão ferroviária da Grã-Bretanha e a consolidação do pensamento da sup...

Realidade, uma convenção humana

"O homem é a medida de todas as coisas" Protágoras de Abdera Nascido em Abdera, Protágoras (481-410 a.C), considerado pai do movimento sofístico, foi um dos mais importantes sofistas de Atenas. Foi amigo de Péricles, político e orador grego, que o teria encarregado de redigir uma constituição para a recém-formada colônia ateniense de Thurii em 444 a.C. A influência de Protágoras na história da filosofia foi significativa. Historicamente, foi em resposta a ele e a seus colegas sofistas que Platão começou sua busca por formas transcendentes de conhecimento o qual pudesse de alguma maneira ancorar o julgamento moral. Com os outros sofistas e Sócrates, Protágoras fez parte de uma mudança no foco filosófico da antiga tradição pré-socrática da filosofia natural para um interesse na filosofia humana. Ele enfatizou como a subjetividade humana determina a maneira como entendemos, ou mesmo construímos, nossa realidade, uma posição que ainda é parte essencial da moderna tradição filosóf...